Sou uma romântica, sempre fui. Não romântica no sentido esvaziado das flores, bombons e palavras de amor, mas romântica no sentido inteiro de paixão, utopia, idealização. Vivo minha vida baseada na esperança de um mundo mais cheio de possibilidades, no sonho de que todos possam viver suas potencialidades - sejam elas quais forem -, e na alegria de me sentir livre em poder reagir como uma criança em alguns momentos da minha vida.
Vivendo essa pandemia da forma mais intensa que posso (e que faz parte da minha personalidade), estudei, questionei, me revoltei e trabalhei. Sou professora de artes em duas escolas completamente diferentes: uma de educação infantil e outra de ensino fundamental I e II. Uma baseada na liberdade e inteireza da criança, e outra na formatação dos conteúdos de uma apostila. Não posso reclamar dos meus alunos (que participam de minha aula). Aqueles que se interessam têm me mostrado coisas incríveis. O que reclamo é como vemos a educação e nosso país.
Como disse anteriormente, tenho estudado e questionado. Entrei na pós graduação da FLACSO Brasil, que não conhecia, e ingressei no curso de Cultura e Educação, estudando com pessoas de currículos e capacidades dentro da área cultural e educacional muito extensos, com experiências riquíssimas. Hoje, li sobre o tal de Direitos Humanos. Li e me estarreci.
Deixamos entrar um governo que tem como premissa a destruição dos direitos humanos e que ignora a constituição. Estamos assistindo o assassinato em massa de um país que ainda está engatinhando em quase todos os quesitos. Estamos indignados e desesperançosos. E por quê?
Um dos textos que li trouxe o seguinte trecho sobre as Revoluções que aconteceram na Europa no início do século XVIII:
"Era uma luta política nacional, e o cidadão que dela surgia era também nacional. Isto quer dizer que a construção da cidadania tem a ver com a relação das pessoas com o Estado e com a nação. As pessoas se tornavam cidadãs à medida que passavam a se sentir parte de uma nação e de um Estado."
CARVALHO, José Murilo de. Introdução: mapa da viagem. In: Cidadania no Brasil. O longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. pp. 7-13.
Esse sentimento de pertencimento acredito que poucos temos. Quantos "Brasis" existem dentro deste vasto território? Já pararam para pensar que para existir uma unidade de "Brasil" seria necessário matar a diversidade do mesmo? E que unidade queremos? A unidade que tenta ser vista como européia? Sugiro que assista Bacurau, um filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
E onde entra a educação nisso tudo? A frase acima de Carvalho me fez pensar em outra, de Plínio Marcos: "um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.". Nós brasileiros temos muito medo de nos conhecer e nos reconhecer. Um povo que - sim- tem como base de sua formação uma cultura indígena e africana fortíssima com suas crenças e tambores. Sim TAMBORES! Que palavra mais temida dentro da nossa educação! Além dos tambores, as duas culturas (e a cultura portuguesa também) estão muito ligadas à espiritualidade. Que palavrão! (se não for colocado dentro do contexto da religião cristã). Me desculpem a irritação, mas esses temas não podem mais ser tratados desse jeito se realmente quisermos um país que respeite e conviva de fato com as diferenças. Você já parou para pensar o quando pode aprender com aquele que é diferente de você?
Um dos pensamentos que mais me ocorre hoje é: que tipo de Brasil nós queremos? Para quem nós queremos? Como queremos construí-lo? Penso que até agora nós tentamos construir um Brasil baseado em ideologias eurocêntricas, com pensamentos colonizadores, normativos, mais excludente que inclusivo. Se nós quisermos mudar essa realidade, temos que mudá-la agora, dentro da escola, respeitando, entendendo e convivendo com nossa diversidade.
Para concluir, se quiser, assista esse mini-documentário sobre Direitos Indígenas. Aqui eles falam sobre essa visão eurocêntrica do mundo e da educação dentro dessas comunidades.
https://www.youtube.com/watch?v=Kp7PZMjy52Q&feature=youtu.be
Eu ainda acredito que podemos ser livres e plenos dentro da nossa diferença. Por isso insisto: sou arte-educadora.
No dia em que esta foto foi tirada eu contei a Lenda da Mandioca para meus alunos da educação infantil. Neste dia minha visão sobre educação mudou. Assim como a mandioca, eu morri e renasci de outra forma, para alimentar a mim mesma e aos outros ao meu redor.

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